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O que fazer com os resíduos das rochas ornamentais?

TEXTO: LUIZ SUGIMOTO. FOTOS: ANTONIO SCARPINETTI / DIVULGAÇÃO. EDIÇÃO DE IMAGEM: LUIS PAULO SILVA
  
Rochas ornamentais como granitos, mármores, ardósias, serpentinitos e quartzitos são aquelas transformadas em pias, pisos e revestimentos, embelezando casas, prédios, altares e túmulos. Ocorre que neste processamento pode ocorrer até 80% de perda das rochas originais, desde a extração no maciço (lavra), passando pelo corte, até o polimento. O Brasil é o 5º exportador mundial de rochas ornamentais, com 3,3 milhões de toneladas em 2015, sendo os Estados Unidos o importador principal; já o mercado interno consumiu 6,2 milhões de toneladas, com o Espírito Santo respondendo pela metade da produção.

Contribuir para a destinação mais adequada de pelo menos parte desta imensidão de resíduos minerais, que hoje, em sua maioria, são descartados em aterros, é o que pretende Jeferson dos Santos com sua dissertação de mestrado orientada pelo professor Fernando Galembeck e apresentada no Instituto de Química (IQ). “Uma motivação para a pesquisa é que nossa família possui uma marmoraria em Salto [SP], cidade com forte tradição nessa atividade. Meu pai está com 83 anos e trabalha com rochas desde os 13”, justifica o autor da dissertação. “Sempre ajudei na marmoraria, que agora administro, e me incomodava ver tanto material sendo jogado fora por falta de utilidade.”


Foto: Antonio Scarpinetti - Jeferson dos Santos: inspiração para a pesquisa na marmoraria da família

Jeferson dos Santos explica que os granitos e os mármores dominam o mercado de rochas ornamentais. Para sua pesquisa, ele escolheu o granito “cinza corumbá”, que apresenta uma constituição mineralógica mais padronizada, possibilitando melhor análise de suas variáveis para se chegar a uma aplicação desejada. “A primeira parte da pesquisa foi de caracterização do pó gerado no corte e também do pó da britagem do granito cinza corumbá, a fim de estudar a influência desses processos mecânicos na composição e quantidade dos minerais presentes em frações de granulometria diferentes das duas amostras.”

Segundo o autor da dissertação, tanto o resíduo do corte como da britagem são constituídos dos mesmos minerais, mas apresentam propriedades superficiais diferentes – características decisivas para o desenvolvimento de aplicações. “Trabalhei com um conceito atual e importante, a mecanoquímica, que procura responder a uma questão básica: se um processo mecânico (no caso, corte ou britagem) pode transformar quimicamente um material.”

Tanto no pó do corte como da britagem, Jeferson dos Santos encontrou mica, quartzo e feldspato, os três principais minerais que constituem o granito cinza corumbá. “A diferença está na proporção de minerais em frações de tamanhos diferentes. O pó do corte, por exemplo, contém mais feldspato (em frações mais finas) e poderia ser usado na fabricação de cerâmica; já o resíduo de brita, por ter mais quartzo, serviria à indústria de abrasivos (trata-se de um minério duro e piezoelétrico, ou seja, quando uma força lhe é aplicada, gera corrente elétrica).”


Foto: Antonio Scarpinetti - Separação do pó do corte e do pó da britagem de granito para as análises

Cereja do bolo

Ao supor que os dois tipos de pó, por serem bastante finos, poderiam adsorver poluentes na água, Santos realizou testes com azul de metileno, simulando o tratamento do efluente de uma indústria que utilize corantes, por exemplo. “Com o pó do corte de granito, consegui uma eficiência de 30% na adsorção do corante, enquanto o resíduo de britagem apresentou 93%. Isso significa que a atividade mecânica produziu materiais diferentes, não só na constituição como na superfície. Na verdade, surgiu um contaminante inesperado no processo de britagem e o resultado foi um material que não adsorve a água (hidrofóbico), ao passo que o pó do corte encharca. Foi a cereja do bolo neste projeto.”

Jeferson dos Santos, que também é professor em cursos de engenharia civil e ambiental, tem a expectativa de obter patentes e, por isso, evita revelar detalhes desta pesquisa à qual dará continuidade. “A dissertação me abriu pelo menos três campos de pesquisa: a utilização desses resíduos de granito diretamente na construção civil, como carga em concreto (substituindo a areia); como carga para polímeros; e também como fertilizante – uma ideia do professor Fernando Galembeck, que atentou para o alto índice de potássio, um produto que o Brasil precisa importar para suprir a demanda.”

Fonte: https://www.unicamp.br/unicamp/index.php/ju/noticias/2017/04/24/o-que-fa...